Por sorte, distraídos

por Renata Nascimento

# 1

Roberta chega correndo no aeroporto JF Kennedy em NY. Ela tenta tirar suas três malas de dentro do táxi. O motorista, um Sr haitiano mais velho, é quem faz o trabalho. Ela pega o carrinho com as duas malas grandes e carrega a menor. Dentro do aeroporto ela fica um tempo na fila do check in até entender que está na fila errada.

Fernando entra no saguão com o seu sobretudo preto e carrega apenas uma mala pequena muito parecida com a da de Roberta. Ele para atrás dela. Eles não se conhecem. Fernando não desgruda do telefone, do outro lado da linha o seu chefe quer informações que tomam toda a sua capacidade de pensar. Ao pesar as malas, Roberta é informada que precisa eliminar alguns kilos de uma das três. Tira a nécessaire de dentro de uma e sem querer passa para a mala de Fernando o peso que estava sobrando na outra. Distraídos não percebem e embarcam as suas malas trocadas.

O avião balança um pouco e Fernando fica com um certo medo. Ele pensa na sua vida amorosa, em seus projetos de filmes e toma um remedinho. Capota em cinco minutos. Algumas fileiras ao lado Roberta toma um vinho tinto e janta. Não gosta de comer muito a noite mas não resiste. Está ansiosa. Pensa em como seria se voltasse a viver no Brasil. Adora NY e sua vida independente mas por outro lado sente falta da família e do conforto de casa.

Fernando olha pela janela e avista “Gotan City”. Está de manhã e São Paulo continua feia. Roberta fecha a janela, a claridade a incomoda. Ambos saem do avião. Na esteira das malas Fernando pega a mala da Roberta e Roberta a mala de Fernando.

Voltar de viagem e tomar café da manhã na casa da mãe é um dos prazeres de voltar de viagem. As empregadas fazem festa pois não encontram com a Roberta há meses. Tem suco natural, iogurte, granola, chá, tudo o que ela gosta. Depois do das risadas ela abre a mala, pega a sua nécessaire, escova os dentes e cai na cama.

Fernando engole um pão de queijo saindo do aeroporto. Pega um táxi e voa para a casa. Está com a cabeça a mil. Tem uma reunião importante naquele mesmo dia.  Chega em casa e abre a sua mala. Desacredita ao encontrar com cremes e remédios que não eram dele.

# 2

No dia seguinte, com todo o desentendido formulado em suas cabeças, Fernando e Roberta combinam de se encontrarem no apartamento dela para destrocarem as malas. Ainda bem que existe etiqueta de identificação mas pena não fazer uso delas. Por agora aprenderam a lição.  Ao menos a pessoa atendeu, morava relativamente perto e não parecia um psicopata.

Na hora do almoço o táxi deixa Fernando e a mala na frente do prédio de Roberta. Ele telefona para o número da etiqueta mas é o número residencial e ninguém atende. Espera uns vinte minutos até que ela liga para ele.

-       E aí, cadê você?

-       Cadê você eu quem diga, estou esperando a meia hora na porta do seu prédio.

-       Ah tá já estou indo. Te vi.

Fernando não entende nada, fica meio confuso procurando a pessoa que ficou com a sua mala.

Do outro lado da rua, Roberta carrega compras do supermercado.

-       Oi, me ajuda aqui. Vamos subir.

O elevador sobe até o décimo primeiro andar. O silêncio predomina. Ela mede ele dos pés a cabeça. Ele pergunta:

-       O que foi?

Ela acha ele engraçado.

Ele pede licença ao entrar no apartamento daquela garota aparentemente maluca que acabou de conhecer. Dá de cara com o poster da Bjork. Depois passa os olhos rapidamente pelos livros de arte da sala dela. Roberta lhe oferece um chá. Ele diz que está com pressa mais aceita. Conversam um pouco sobre a confusão e tentam reconstruir a cena de como a nécessaire foi parar na mala dele. Desencanam de entender. Nesta altura Fernando já havia passeado pelo o rosto de Roberta e encontrado três atrizes, assistido dois filmes e escutado quatro músicas. Ela diz que tem aula de pilates e eles se despedem com dois beijos. Ele fica sozinho no corredor, pensando, pensando… Será que não chamaria essa garota para sair? A porta do elevador se abre e ele até arrisca voltar mas desiste. Ao sair do prédio o celular de Fernando toca: é Roberta, ele fica feliz.

-       Ei, volta aqui… Você esqueceu a mala.

Generalismo zen

Juliana Cunha

Tenho uma relação muito dúbia com essas pessoas focadas. Essas pessoas que passam 10,  20 anos querendo a mesma coisa. Elas vão lá e conseguem porque se tem uma coisa que o Oriente ensinou ao pretensioso Ocidente é que a disciplina vence o talento quando eles se encontram em condições justas de temperatura e pressão.

Parte do tempo, considero essas pessoas focadas as mais espertas de todas. Como elas conseguem isso? Como elas conseguem fazer escolhas e manter escolhas numa época feita para a distração?

Na outra parte do tempo, acho que são só umas coitadas que não entenderam o mundo em que vivem: esse mundo que te permite seguir um tutorial de maquiagem enquanto assiste a uma aula de Yale sendo você esse ser humano sem nenhuma capacidade de usar duas cores de base ou de frequentar Yale.

Só falam mal desses nossos tempos de muita informação, de conhecimento orkutizado, mas ninguém percebe que ser um generalista exige alta dose de coragem? Exige aceitar ser apenas um aprendiz para o resto da vida. É, só pra começar, abrir mão de qualquer ilusão de imortalidade através de uma contribuição, de um legado.

Generalistas não escrevem obras que ficam, não são fontes de autoridade em matérias, não são homenageados. Eles aprendem meia dúzia de coisas pela metade e morrem com essa meia dúzia de coisas, assim mesmo, pela metade. Tem algo de muito bonito e zen nisso aí.

meu amor mendigo

Laura Schichvarger


todo dia passo em frente ao meu amor mendigo. vejo-o sempre, ao dormir e ao acordar, aonde quer que eu esteja, ele está na esquina, cantando ou apenas coçando-se.

se por ventura recebe uma esmola, passa dias sorrindo… mas esmolas são raras e por definição inesperadas, só vêm quando a gente está quase se acostumando a ficar sem. meu amor mendigo não mendiga por vocação, mas porque não tem outro jeito. sente-se mal de pedir. para pedir, é preciso merecer. e o que ele merecia? menos que nada, um vagabundo inútil e louco.

já me cansei dele. já tentei fazer outros caminhos para desviar-me do seu, já inventei mil distrações ao chegar perto dele para fugir-me a atenção do seu olhar. pois sempre que vejo meu amor mendigo, encostado na calçada, esperando algo que nunca vem, com olhos de cão faminto, não consigo não me deixar consternar. ele está sempre lá.

sempre. faça chuva, faça sol. frequentemente, logo antes de passar de manhã pelo canto sujo onde ele arrasta os mesmos cobertores imundos de lembranças, eu me pergunto se ele ainda estará lá, como quem diz ‘mas ainda não desistiu?’ (desejando que ele desista).

mas não. persiste.

nenhuma lógica, nenhuma razão explica tamanha persistência. ou é fé, ou é obsessão.

Uma centelha de futuro

Mariana Portela

I know not what tomorrow will bring…” – Última frase de Fernando Pessoa

Acordei aturdida de um sonho bom. Agora que as cortinas se fecharam, não há aplausos para a realidade. No entanto, reverbera em mim a familiar sensação de ter pertencido àquela história. Tolos e humanos somos nós, ao despertar desses fragmentos de alma!

No sonhar há um luminoso encontro entre a terrível loucura e a suposta normalidade. Personagens se miscigenam sem pudor. As cisões deixam sua abruptude à margem de meus reinos. Pensamentos enlaçados às ações, em absoluta confluência.  Nada há de tão absurdo que não possa acontecer. Toda trivialidade não plangente se reflete em ontologias. E vivenciar isso é sublime para aqueles que não têm medo de submergir em estranhezas.

Adormeci a minha vida por algumas horas e trouxe a docura infante aos lábios, neste momento. Confesso-o com o intuito de recordá-lo até os limites da memória. Esse sonho bom, só meu. E, como é evidente, não poderei contar o seu enredo. Não suportaria deteriorar a excêntrica ideia de que ele sairá do lápis da minha mente e desenhará minhas futuras cicatrizes.

+ Kundera, – prozac

Vitor Akeda
http://vitorakeda.com/

Tomash queria conservar o que ainda era genuíno em seu relacionamento. Julgou razoável abrir mão das promessas. Quis abrir mão dos compromissos que se provaram inadequados com o tempo… muito embora os tivesse prometido com a melhor das intenções. Tereza por sua vez tinha nessas mesmas promessas os faróis que a guiavam pelos assuntos do coração. Órgao um tanto mal cultivado. Tereza não podia continuar em um relacionamento incompleto. Não lhe serviria uma bússola sem ponteiros.

A indisposição de Tomash em consertar-se enquanto bússola ofendeu Tereza. Ver-se obsoleto ofendeu Tomash.

Quando Tomash eventualmente escreve um “oi” no mural de Teresa ela se sente incomodada. Nota na atitude dele a intenção de conservar laços. Quando ela responde, mais crua do que gostaria, ele se sente inadequado. Nota na postura dela o objetivismo e a certeza que lhe faltam ao lidar com amor.

Deve existir um jeito mais prático de comer uma maçã

Renata Ortiz

Pensei: é manhã e estou com fome. Desço e procuro pela maçã. Assim como caipira trepa em árvores, eu a adivinho na primeira subida. Nota-se que a verdadeira maçã gosta de ser pseudo-fruto; não é como as outras de mesmo nome que ficam acomodadas em macieiras floridas afirmando sem razão que são frutos. Pois bem, olho aquela casca e depois de muito, muito tempo, começo a averiguar por onde e como cortá-la. Ela está madura, vermelha, mole por causa da idade. Mas para a minha sorte, ela também está sem furúnculos nem pó; madura duas vezes! Verifico na extremidade e na delicadeza daquela maçã uma respiração, um deslize causado pela brisa do vento ou qualquer movimento que me sirva de referência para compreender os seus aromas. Então, de longe, como quem não quer nada, cavo uma idéia até sair de dentro da maçã um suco doce. Alguns diriam ser bruxaria e confesso: se a estudo é para mordê-la. Ela volta (assim como também não quer nada) e deixa-me acariciá-la exalando o seu considerável valor nutritivo. Embora caia aos pés dos lindos frutos, a maçã sabe: apenas os “pseudos” podem revelar-se o apreço necessário. Pois eles são da mesma linhagem; como eu e ela. Depois de tantos estudos, muitas vezes em vão, o que faço é desviar o meu olhar de gorda, de cima da maçã, para não mais cometer a intenção do pecado.

Deve existir um jeito mais prático de comer uma maçã.


O museu dos amores perdidos

Mariana Portela

Enquanto o garçom deitava ao chão uma bandeja trovejante de pratos e cálices e restos, para eles o mundo não acontecia. Entre risadas inconfundíveis e tímidas carícias, o mundo não acontecia. Apesar do barulho, o mundo não acontecia. No cerne da futilidade pequeno-burguesa dos restaurantes dos Jardins, nada em torno fazia alarde àquele momento. E o amor era uma crase. Os céus lhes sorriam e reverenciavam tudo o que não era dito. Mágicas como móbiles em berços, as estrelas salpicavam – uma a uma –  a noite cúmplice. Existiram batidas policiais, assaltos à mão armada, fugas de adolescentes desesperados, porres, injúrias, traições ou suicídios? Nada. O mundo não acontecia ali. Contudo, a noite se esvaiu e o dia é muito perigoso para quem ama. As manhãs trazem as irregularidades no rosto, as maquiagens borradas, o hálito adormecido… LEIA +

mea culpa

laura schichvarger

Existem pessoas pragmáticas e existem pessoas fantasistas. Falta ao pragmático a capacidade visionária de ir além dos detalhes cotidianos; falta ao fantasista a habilidade de viabilizar seus sonhos. O bom é que eles se completam. O ruim é que um não entende muito bem o jeito do outro agir. Pro pragmático, o fantasista é um doido, vive delirando, alimenta-se de inconsistências, irresponsável, coloca-se em risco. Pro fantasista, o pragmático é um chato, medroso, casca grossa, empata foda. Mas um atrai o outro. Poucos são os tipos puros. Quase todo mundo é um pouco dos dois, variando as proporções. Há períodos mais propícios para um que para outro, também: a energia adolescente beneficia-se do idealismo entusiasmado para brigar por aquilo que pensamos ser certo e merecer; a idade madura coloca a perspectiva do longo prazo lembrando que tudo é um processo. E há também ocasiões. Ter sangue frio quando a realidade cai paquidérmica na sua frente é necessário (mas como manter o sangue frio quando tudo faz o sangue ferver?). Manter o sangue frio frente a algo atroz soa insensibilidade. Esquentar por qualquer coisa faz perder credibilidade. Ter a coragem de explodir quando ninguém teve pode ser heróico. Tá, mas essa lenga-lenga toda é pra quê? É que saber quando ser pragmático e quando ser idealista não é fácil (c’est pas évident, dizem os franceses). E mesmo quando a gente sabe como agir, nem sempre tem a capacidade de. Pior: às vezes o lado pragmático e o lado idealista ficam brigando, aí uma hora a gente faz como manda o idealista, aí outra hora se arrepende e tenta consertar com o que manda o pragmático, e no final, aos olhos alheios, você é um esquizofrênico. E tudo isso só pra dizer que… tem coisas que a gente sabe que deveria ter feito diferente, mas não consegue. Pra mim, um copo de pragmatismo, por favor. Puro, sem gelo. E uma porção bem farta de coerência. Crua. Obrigada. Tô começando uma dieta.

Diálogo (seguindo…)

Camila Fremder

-     Oi Filha, a mamãe tá ligando pra te desejar um feliz dia internacional da mulher, porque você é uma mulher muito especial!

-      Oi mãe, mas é hoje?

-        É sim filha ouvi no rádio…

-    Tem certeza, mãe? Acho que é dia de Iemanjá…

-    É?

-    É mãe, o dia internacional da mulher é em março…

-    Ah tá, então feliz dia de Iemanjá! Preciso me desculpar com as minhas amigas porque mandei e-mail pra todas hahahaha, mas adoro Iemanjá, um beijo, filha.

-    Beijo mãe…

Circuito Shabat

Juliana Cunha

Desde que vim morar aqui em Iídichenópolis uma coisa me intriga: falta informação aos zeladores malandros e bandidos de uma forma geral. Formação cultural, eu diria. Conhecimento básico sobre religiões. A simples informação de que os judeus ortodoxos não podem carregar nada no shabat (de sextade noite até o fim do sábado) já mudaria a vida deles. Porque, repare, são judeus ORTODOXOS. Se Deus vira pra eles e diz: “não carregue nada no shabat”, eles não conseguem abstrair nem ummilímetro. Está com frio? Vista o casaco. Nada de levar na mão. Deu calor no meio do caminho? Faz sauninha particular. Ou tira o casaco e taca no lixo. Eu, por exemplo, queria muito me converter porque, né, meu namorado é judeu e pensei emfazer a Madonna e virar judia também. Mas nem rola porque sou asmática e não poderia carregara bombinha no shabat. Com todo o resto eu concordo, até com a parte da peruca, mas esse lanceda bombinha realmente atrapalha. Deus não negocia. Então, vai sair de casa (e tem que sair porque tem que ir na sinagoga), nadade levar a chave. Larga a porta aberta mesmo. Daí eu não entendo porque até agora não criaramo Circuito Shabat e sairam fazendo a limpa nas casas dos ortodoxos. Na prisão todo mundovira cristão mesmo, poderia muito bem carregar tudo que quisesse e ainda teria a chance de searrepender só quando completasse 70 anos e estivesse gripado.